O POVO NAS VIAGENS DE EÇA DE QUEIRÓS E RAUL BRANDÃO

 

Creud Pereira Santos Martinelli – USP    

 

                                                                                     1.                                                                                                       

O gosto por viajar, aventurar-se em busca de terras exóticas e desconhecidas constitui uma marcante característica do século XIX e início de nosso século. Valorizar o Oriente, as terras africanas ou a distante América pareceu, ao europeu desse período, um fértil veio a ser explorado em busca do novo. A Europa havia se tornado pequena, superpovoada, esgotada e decadente para atender e realizar as inúmeras ânsias do homem, principalmente, após as décadas de Napoleão.

Exemplar, nesse sentido, é a afirmação de Disraeli, quando sustenta que, por volta de meados do XIX, o Oriente se tornara [...] uma carreira, em que a pessoa podia refazer e restaurar não apenas o Oriente, mas a si mesma[1]. Ao se referir a carreira, conciliando-a à restauração, não só sinaliza para a possibilidade de os jovens ocidentais interessarem-se pelo Leste, mas também ratifica o conceito da decadência européia e a necessidade de progresso do Oriente.

A sede da perdida harmonia entre o homem e o mundo abrandava-se na esperança de uma renovação pessoal e coletiva, em forma de verdadeira corrente cultural, e prodigalizou-se em febre de viagens, reais ou imaginárias, presentes nas obras de uma enorme massa de escritores, entre os quais estão poetas, romancistas, filósofos, teóricos, historiadores e políticos, integrando-se academicamente no imaginário e na cultura européias, embora, muitas vezes, via informações fantasiadas para consumo local.

Assim, o ideal da viagem como renovatio, já perfilado pelos cavaleiros andantes medievais que se aventuravam em perigosas justas e santas peregrinações para o expurgo dos pecados e ascensão ao paraíso celestial, será resgatado a partir do século XIX : trata-se, porém, de viajar não mais em busca da salvação da alma, mas para refazer e restaurar cada qual a si mesmo, escapar das condições de difícil sobrevivência em uma sociedade em crise, no aqui e agora, quer se trate de um artista ou de um operário, pois o grande tufão de 1848 já se fazia sentir desde as primeiras décadas do século :

 

Todos sabiam disso. Raras vezes a revolução foi prevista com tamanha certeza, embora não fosse prevista em relação aos países certos ou às datas certas. Todo um continente esperava, já agora pronto a espalhar a notícia da revolução através do telégrafo elétrico. [2]

                                   

Poucos românticos ou realistas furtaram-se à sedução do exotismo oriental, dos castelos do Reno e da Floresta Negra medieval, dos mistérios chineses, da languidez taitiana ou mesmo da atração selvagem pelo índio da América , dos areais tórridos do deserto, do folclore russo e carnavais de Veneza. O grande desconforto, o mal estar do século encontrava alívio na alienação da viagem ao passado ou a regiões remotas de culturas desconhecidas e inexploradas, acreditando-se que tais sociedades inóspitas e primitivas abrigassem o estereótipo do sonho das virtudes e inocência natural que a sociedade burguesa destruíra.

Neste sentido, é a desilusão com o presente que impele o artista romântico a buscar na alteridade, no outro desconhecido, o encontro do eu e sua conseqüente irmandade; e é, na seqüência, com a mesma constatação de um presente aniquilado que os finisseculares mergulham nas observações e análises do não-eu da realidade circundante como os realistas/naturalistas ou, em um novo viés, isolam-se em esferas inefáveis, distanciando-se para um mundo de sonhos, prática comum entre os que engrossavam as fileiras dos artistas simbolistas.

De qualquer modo, em ondas de aproximação e distanciamento, de forma mais intensa e conscientizada, um eixo de tensão polariza a atenção dos artistas a partir do início do século XIX : a preocupação com as camadas populares. O povo em geral, composto de burgueses e plebeus, torna-se motivo literário dominante[3].

Portanto, parecem-nos bastante pertinentes as considerações que levamos a efeito no presente trabalho, uma vez que se pretende estabelecer reflexões acerca do retrato do povo, na vertente de dois escritores portugueses contemporâneos, via textos que, em essência, constituem-se em relatos de viagens : O Egito de Eça de Queirós e As ilhas desconhecidas de Raul Brandão.

Objetiva-se, portanto, empreender uma tentativa de compreensão de dois modos divergentes de apreensão de realidade em dois prosadores filiados a estéticas visceralmente contraditórias : a realista e a simbolista, embora publicamente comprometidos com as correntes progressistas do século e, principalmente, com a sociedade portuguesa.

 

                                                                        2.

 

Apenas para efeito de uma organização cronológica, iniciemos com O Egito, de Eça de Queirós, relato da viagem que o autor empreendeu à terra do faraós, convidado que foi a assistir à inauguração do Canal de Suez como jornalista. A viagem estende-se de 23 de outubro de 1869 a 3 de janeiro de 1870 e o autor faz-se acompanhar pelo amigo e futuro cunhado Conde de Resende, Luís de Castro Pamplona.

O livro vem à luz como publicação póstuma, a partir de notas esparsas e carimbos de passaporte, empreendida pelo filho do autor José Maria d’Eça de Queirós, reconstituindo o percurso da viagem ao Oriente : Cádis, Gibraltar, Malta, Alexandria, Cairo e o Vale das Pirâmides.

Todas as observações da viagem, como bem observou a professora Silvana Maria Pessoa de Oliveira, sustentam-se como uma instância narrativa tensionada entre dois pólos : 1) o encantamento da paisagem e a consciência crítica do civilizado e 2) a imagem estereotipada veiculada pelas lendas e narrativas e a averiguação local da ruína e da decadência.[4] Eça desembarca no Egito carregado de uma bagagem cultural típica do europeu intelectualizado do século XIX, esperando deparar-se com um Oriente ocidentalizado, paraíso acessado pelas narrativas fantásticas dos contos árabes de As mil e uma noites.

 

Estávamos ligeiramente comovidos. Íamos conhecer o Cairo, a cidade das Mil e Uma Noites![5]

 

Assim, embora a narrativa árabe seja a todo momento evocada, o Egito que Eça conhece não corresponde àquele que povoa seu imaginário. A despeito do deslumbramento com a paisagem natural, frustra-se nas expectativas, pois o Egito se lhe vai desenhando como uma realidade distanciada do universo dos príncipes maravilhosos que se entrevêem no esplendor das Mil e Uma Noites! Paralelamente à exuberância da paisagem imponente, banhada pelo sol cintilante, com sua luz imóvel e abundante, o Autor deslumbra-se com a fertilidade do vale do Delta do Nilo e suas culturas que têm o aspecto de uma decoração maravilhosa com o trabalho dos negros e felás que carregam os fardos :

 

Admirámos sobretudo as culturas pela sua preparação, pela sua abundância, pela sua altiva beleza. Que plantações perfeitas, que luminosos canais, que arvoredos maravilhosos, que abundância, e como ali a terra é fecunda!

 

O Autor deixa-se envolver pela aura mítica de um lendário e maravilhoso Oriente que povoa sua imaginação : Tudo aquilo nos surpreende como se entrássemos num mundo antigo, histórico. E continua a tecer conjecturas sobre o povo que habita uma tal região edênica :

 

Instintivamente, pensa-se no Paraíso, na velha fertilidade mitológica : os homens que ali vivem devem ser fortes, de movimentos perfeitos e seguros, sólidos e bem construídos; as suas casas devem ter a abundância; o seu viver é decerto simples e pacífico; os velhos devem ter uma placidez sossegada e uma bondade primitiva; hão-de ser hospitaleiros, sóbrios, tranqüilos e felizes...

 

Entretanto, é exatamente nesse momento de fantasia imaginativa que se vê confrontado com a realidade, pois o homem que cultiva o vale abundante do Nilo é o pobre e miserável felá, que nada possui e vive na condição do antigo servo mesmo inferior ao escravo, pois pode ser bastonado e ficar suspenso, preso à parede pelas orelhas ensangüentadas . O escravo raras vezes era bastonado : representava um valor, um objeto mercantil, que se podia deteriorar, ficar com uma deformidade nas costas, uma chaga nas pernas : por isso, só o bastonavam na sola dos pés.

O felá simboliza, em O Egito, a mais acabada imagem do povo. Ironicamente, Eça identifica-o como de uma raça vigorosa e seguramente da velha raça egípcia : até a puberdade anda nu pelos campos, rolando no lodo da inundação do Nilo, mendigando nas ruas do Cairo; quando adulto nada tem de seu e sobrevive apenas com uma saia cingida ao corpo e habitando uma casa de três metros coberta com palha de durah; tem apenas uma esteira e, com toda a família, dorme em promiscuidade e todos se alimentam na mesma gamela. Entretanto, é o responsável pelo trabalho da terra, da indústria, obrigado a trabalhar nas obras de construção do paxá e está, ademais, sujeito a pagamentos de impostos ao xeque, chefe da aldeia. Termina os dias carregando pesados fardos e mendigando pelas ruas e, morto, é atirado à vala. Entretanto, tem uma resignação animal : não percebe que é infeliz.

Aliás, ironia maior, no fundo é feliz. Possui o clima!, segundo a visão do engenheiro europeu que trabalha em Suez , alertando o Autor de que as condições de vida do felá não são muito diferentes daquelas em que vive o proletariado europeu :

 

pense nos operários de Londres ou de Paris, naqueles rostos melancólicos, entristecedores, naquelas crianças que pela manhã, às sete horas, tiritam de frio às portas das fábricas, nas pobres mulheres tísicas, com os dedos inchados, cosendo toda a noite, e pela manhã molhando em água fria uma côdea de pão!

 

Dessa forma, o narrador defronta-se, no Oriente, com as mesmas mazelas que caracterizam o mundo europeu civilizado : a exploração e tirania dos xerifes xeques e Paxás, ricos e poderosos, que têm barcos, cavalos, burros, dromedários, o Nilo; a decadência de uma civilização pobre e arruinada, caindo em pedaços; uma sociedade movida pela mão de obra escrava e em que a propina, o backchich , pedida até pelos religiosos nas portas das mesquitas com paredes desmoronadas, é um dos dissolventes da raça árabe, onde o maometismo, a santa caravana de Meca transforma-se lentamente em caravana comercial. A própria mulher é inútil, perigosa, a chaga do Oriente!

O Cairo é a cidade poética, bela, imaginosa, amorosa, lânguida, luxuriosa, com toda a beleza oriental, mas somente quando vislumbrada à distância, do alto do minarete das mesquitas, conforme a imaginação distanciada da realidade do europeu. Interiormente, porém, num ângulo de aproximação mais detido, é miséria, podridão, fome, expoliada por uma política sem força e sem ideal, uma religião sem espírito, uma arquitetuta sem idéia, um povo sem pátria, uma existência de acaso, a ignorância, a vaidade, a sensualidade! Ao glorioso passado histórico opõe-se o presente decadente, da raça dos conquistadores restam apenas escombros e a fertilidade do Nilo. Não espanta que os adjetivos que predominam sejam : devastada, remendada, escura, pobre, arruinada, velha, decadente, hedionda, negra, associados a imagens de ruínas, pedaços, escombros, penúria, desolação, imundície, lama etc.

Eis o que Eça resume como os vícios da civilização, atribuídos ao nosso mundo, europeu, civilizado, sábio, filosófico, egoísta e rico, pois ao lado da miséria circundante, erguem-se ilhas de conforto, cultura e alegria, embl_matizadas pelo Shepheard’s, hotel onde se hospeda ou pela Ópera, por onde circulam os embaixadores, poetas, engenheiros, loretas, caricaturistas, pintores, fotógrafos, burgueses, dândis, lordes, jornalistas, críticos e agiotas. Na verdade, o local de trânsito do capital imperialista ¾ franceses, ingleses, russos, italianos, austríacos, americanos ¾ responsável pela destruição de todo o povo e suas tradições, onde, sob os gestos polidos : mente-se, contesta-se, e o homem revela-se. E a invasão européia no Egito, como influência deletéria de exploradores que vêm arrancar o seu bocado de presa, que exploram, sugam, chupam, ameaçam e... fogem, mostra-se com toda sua força na predominância de um léxico carregado de estrangeirismos : drogman, Monseigneur, gandin, Madame une telle, marionettes, Mademioselle, faire le Pacha, boutonnière.

Frente a esse panorama, é significativo que a segunda parte do livro, que encerra a viagem, venha a denominar-se, ironicamente, “Noites Feéricas”, pois até as Ghawazis que dançam para os estrangeiros, estão bem longe de ter aquele encanto que na Europa faz suspirar os colegiais que leram As Mil e Uma Noites. O ideal foi substituído pelo ofício. Logo, desmistificado, o Egito nada mais é que um país morto, simulacro da tradição oriental, civilização artificial de cujo povo nada se pode esperar; e o narrador retorna à Europa, consciente de que nas narrativas de viagem os viajantes escrevem o que ouvem contar ao europeu de Alexandria – e esse, o que conta, conta-o em vista de seu interesse e não em respeito à verdade.

 

3.

 

Raul Brandão, prosador simbolista português, publica, em 1927, seu segundo livro de narrativas de viagem ¾ o primeiro, Os pescadores, centrado na exploração de costumes das aldeias pesqueiras da costa portuguesa, em 1923, já se transformara num sucesso junto ao público ¾ relatando a excursão que empreendeu entre 8 de junho e 29 de agosto de 1924 aos arquipélagos portugueses de Açores ( formado por nove ilhas: Corvo, Graciosa, Flores, Faial, S. Jorge, Pico, Terceira, São Miguel e Santa Maria) e Madeira (com as ilhas Madeira, Porto Santo, Desertas e Selvagens) : As ilhas desconhecidas[6].

O Autor percorre essas pequenas e despovoadas ilhas debruçando-se nas descrições de uma natureza vulcânica, de terras formadas por lavas, rude : pedra negra, areia negra..., grande rochedo a pique..., pedra isolada no mar... , penedo e vento na solidão do oceano..., terras metidas nos vulcões..., paisagem mineral. São falésias, rochedos, morros, crateras de terra queimada como torresmo, ao amanhecer cobertas por uma névoa cinzenta..., um céu sempre nublado que se desmancha quando o sol nasce, banhando as ilhas com uma luz doirada e revelando um mar esverdeado onde às vezes se encontram mais peixes que água, embora sujeito a cóleras súbitas. São os ciclones, os icebergues, as tempestades certas que vêm ali bater pelas correntes do Atlântico, engolindo os barcos e pescadores quando as velas não resistem e despedaçam-se. Um clima ríspido.., batido por ventanias constantes, onde a vegetação exuberante é um luxo de verdura com um verde parado e imóvel das gigantescas árvores: uma floresta tropical majestosa : cedros, faias, aiantos, negrilhos, carvalhos, chorões etc.

Entretanto, o homem que ali vive é feliz[7]. Nesse cenário natural, primitivo, Raul Brandão, detém-se a observar o povo. São diminutas aldeias, pouco povoadas, onde vivem homens que conseguem, através de um trabalho duro, arrancar do mar ou de uma terra inóspita a sobrevivência : homens que suportam uma vida dura e monótona..., lavradores da terra e do mar..., que andam descalços...e regressam da lavoura todas as tardes com as ovelhas, os bois e os burros, os instrumentos de trabalho, os cestos, as cordas, o alvião.

Ao falar da Ilha do Corvo, a menor do arquipélago, o narrador salienta :

 

Não há mercado nem estalagem. Não há médico, nem botica, nem cadeia. As portas não têm chave. Não há ricos nem há pobres, e neste mundo isolado tanto faz ser rico como pobre : o homem mais rico do Corvo anda descalço como os outros e lavra a terra com os filhos. O pedreiro é pedreiro e lavrador. O ferreiro é ferreiro e lavrador, e morre à fome quem não fabrica os currais por suas próprias mãos. Ninguém se sujeita a servir ¾ mas todos os vizinhos se ajudam : quando toca o sino a rebate o povo acode a destelhar a casa, a construir a corte ou a levanta o socado.

                                   

A vida do povo estrutura-se como uma comunidade solidária, uma democracia cristã. Na Ilha do Pico, até a caça das baleias envolve toda a população; ao sinal da baleia toda a povoação acode aos barcos. A devoção do Espírito Santo, as festas, como a do Corno, as cantorias, os nascimentos, casamentos e mortes são eventos coletivos, caracterizados por rituais que datam da Idade Média e dos quais toda a aldeia participa. Da fome ou da abundância todos partilham. Quase todos são proprietários rurais ou pescadores que, com seus barcos, sobrevivem na simplicidade e pobreza. E o Autor salienta : quase toda a gente sabe ler e os crimes são raros..., são os homens mais sãos que eu conheço.

Afinado com o código da estética simbolista, Raul Brandão vai construindo dos Açores um retrato marcado por um clima de mistério ( palavra recorrente no texto), esfumaçado por névoas cinzentas, sombras de nuvens, noites túmidas de lua, imobilidade cinzenta ,com poeira esbranquiçada, estrada de luar em oposição a luzes e cores fulgurantes como o pó roxo que se apodera do verde, monte violeta, azul desmaiado, verde húmido, montes violáceos em que o branco-gris transe de roxo;e sinestesias preciosas : hálito azul, pérolas líquidas, luz delicada, silêncio verde, luz gelada, outonos desfalecidos, noites húmidas de luar... A tonalidade afetiva do discurso na descrição das aldeias e casas pobres marca-se pelo presença constante do diminutivo : casinhas, ruazinhas, laguinhos, jardinzinhos e ambientes domésticos em que tudo reluz de limpeza e sente-se que a mulher é feliz.

O clima de fantasmagoria, abstração e Sonho envolve a narrativa , delineando um território lendário ¾ pois a Atlântida devia englobar uma parte do mar [...] dos Açores ¾, o espaço maravilhoso, um paraíso primitivo distante da realidade temporal:

             

É por isto que eu lhe sinto não sei o quê de estranho. Pertence à vida espiritual ¾ é um fantasma de paisagem. As tintas são tênues e trespassadas de sentimento, a vida suspensa e extática. Ali deve estar a princesa encantada da lenda, em que tanto ouço falar, escondida no fundo das águas, emergindo nas noites túmidas de lua para tomar posse do seu reino...

                                   

O Autor encontrou no arquipélago ¾ onde a vida artificial está reduzida ao mínimo ¾, a alma dos meus avós, ou o quadro dos primeiros tempos da humanidade busc\do por Rousseau. Enfim, um ideal sonhado há longo tempo :

 

O que eu procuro, pela última vez na minha vida, não é o panorama ¾ é a exaltação da vida livre.

 

Entretanto, paradoxalmente, Raul Brandão retorna a Portugal e assume que não poderia viver ali, pois esse homem que ali vive não é livre, não tem sonhos, ideais, submete-se, dominado pela Igreja, sem poder levantar a cabeça. Não é um indivíduo.

                       

Todos pobres, todos descalços, todos, inexpressivos. E nem uma figura, nem um grito, nem uma revolta! Este homem é um produto do isolamento e da religião, e são as regras católicas que conseguem esta uniformidade e a monotonia das almas. Subordinar-se, obedecer, não discutir... Apesar da beleza do sacrifício, falta aqui alguma coisa... Do rebanho[8] não se destaca uma figura.

 

4.

 

As duas narrativas de viagem, portanto, acabam desembocando na impossibilidade de se encontrar o paraíso terrestre. Tanto para Eça de Queirós quanto para Raul Brandão desmorona-se o sonho da busca de felicidade social ou individual em regiões edênicas, seja no Oriente ou no Ocidente; não há saída possível nem sob o maometismo ou via cristianismo. Segundo Eça, que importa a beleza da paisagem se o povo que nela vive sustenta-se com migalhas, falta-lhe o pão da carne? Ou, na visão brandoniana, se ao povo falta o pão do espírito, o sonho que alimenta a alma? Resta, aos dois autores, retornar a Portugal e, cada um a sua maneira, juntar-se às vozes de tantos outros artistas do período e, fazendo coro a Baudelaire, apregoar que a Citera[9] sonhada não existe :

 

Mas que ilha é esta, triste e sombria? ¾ É Citera,

Dizem-nos, um país em canções celebrado

E dos jovens, outrora, o banal Eldorado,

Olhai, enfim : um solo inóspito, eis o que era.[10]

 

*

 

 

Referências Bibliográficas:

 

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução e notas de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985.

BRANDÃO, Raul. As ilhas desconhecidas. Lisboa : Perspectivas & Realidades, s/data.

HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções : Europa : 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo : Editora Cultrix, 1998.

OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. “Riquezas rutilantes : o relato de O Egito, de Eça de Queirós”. In : Anais do III Encontro Internacional de Queirosianos. São Paulo : Centro de Estudos Portugueses : Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língus Portuguesa. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1997.

QUEIRÓS, Eça de. O Egito. In : Obras completas de Eça de Queirós. Porto : Lello & Irmão, s/data, Vol. III.

SAID, Edward W. Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.



[1] SAID, Edward W. Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras 1990, p. 174.

[2] HOBSBAWN, Eric J. A era das revoluções : Europa : 1789-1848. São Paulo : Paz e Terra, 2000, p. 332.

[3] MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa. São Paulo : Editora Cultrix, 1998, p. 118.

 

[4] OLIVEIRA, Silvana Maria Pessôa de. “Riquezas rutilantes : o relato de O Egito, de Eça de Queirós”. In : Anais do III Encontro Internacional de Queirosianos. São Paulo : Centro de Estudos Portugueses : Área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 1997, p. 697.

[5] QUEIRÓS, Eça de. O Egito. In : Obras completas de Eça de Queirós. Porto : Lello & Irmão, s/data, Vol. III. As demais citações são extraídas desta edição.

[6] BRANDÃO, Raul. As ilhas desconhecidas. Lisboa : Perspectivas & Realidades, s/data. As demais citações são extraídas desta edição.

[7] Ã exceção da Ilha de São Jorge, terra de grandes proprietários, onde nos pastos é o homem mais desgraçado dos Açores

[8] Os grifos são nossos.

[9] Ilha grega onde se situava o templo de Afrodite/Vênus, célebre na literatura clássica como lugar idílico, região de culto ao amor e à beleza.

[10] BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1985. Tradução e notas de Ivan Junqueira, p. 407.